Devido ao meu curto tempo de vida, não são tantas as histórias
de superação que tenho para relatar. Entre as poucas,
esta que narro abaixo foi o exemplo mais forte, em minha opinião,
de superação da minha deficiência. Em 1999 fui integrado
ao Sistema Adventista de Ensino, com muito medo, pois seria a primeira
vez que trocaria de colégio. O medo foi aos poucos se desfazendo,
e com o passar do tempo acabou, mas uma coisa me chateava: é
que na Educação Física, sempre observava que meus
colegas faziam de tudo um pouco, mas eu só podia - como até
hoje, participar de aulas de alongamento e corrida acompanhado de alguém.
Foram abertos testes para participar de uma competição
esportiva entre as unidades dos colégios adventistas - o ENDESCA
(Encontro Desportivo das Escolas Adventistas). Refletindo, tomei iniciativa
de procurar a Associação Paulista Leste das Escolas Adventistas
(órgão que controla as escolas da zona norte, leste e
Vale do Paraíba), porque se não o fizesse, não
poderia participar deste evento de maneira nenhuma. Procurei saber se
haveria condições de representar minha unidade, pois o
que me diferenciava dos outros alunos era apenas a falta da visão.
Ficou acertado que eu hastearia a bandeira brasileira na abertura do
evento, e participaria como componente voluntário da prova de
100 metros rasos. Inicialmente, minha mãe começou a treinar
comigo para que eu ganhasse ritmo, depois de um certo tempo, passei
a treinar com um guia, o Wurn, que na ocasião era responsável
pela limpeza do estabelecimento de ensino. Fomos juntos para Guaratinguetá,
no Vale do Paraíba. Participei da competição, não
exatamente como aos outros competidores, mas o que valeu foi que pude
me integrar a um grupo de adolescentes como eu, fazer o mesmo que eles,
apenas de uma forma diferente do que eles fazem. Pude mostrar a muitas
pessoas que estavam ali, que os deficientes visuais podiam, de um modo
ou de outro, fazer o que as outras pessoas fazem. E acima de tudo, provei
a mim mesmo que sou capaz, e que os limites, são as pessoas e
nós mesmos que nos impomos. SP 28/01/2002