O
título acima passou a ter um significado muito grande em minha
vida a partir de 1999. Bem, vamos por partes: tenho vinte e cinco anos
e quase dezoito anos de diabetes. Caramba! Como o tempo passou! Eu era
só uma menina que queria viver como as outras, e até podia,
mas com algumas diferenças bem pequenas, como tomar injeção
todo dia, ir ao médico todos os meses, não comer isso
ou aquilo... Parece fácil, não é mesmo? Se fosse
hoje em dia sim, mas há 18 anos não existiam nem metade
dos diets e lights que enchem as prateleiras dos supermercados por aí.
Sendo assim, até quando pude jogar basquete no colégio
foi tudo bem. Aos 15 anos tive que começar a me mexer de outra
forma. Arrumei meu primeiro emprego. Nessa época comecei a sair
à noite com as amigas, surgiram as paqueras e por aí vai.
Tudo normal para uma adolescente. Digo isso porque eu também
tive a teimosia da adolescência, deixei de ir ao médico
e de prestar tanta atenção na alimentação,
pensando que estava tudo sob controle. Trabalhei como secretária,
atendente em locadora de vídeo, vendedora de loja em shopping,
auxiliar na cantina do colégio e demonstradora em supermercado.
Consegui ganhar um pouco de dinheiro, terminei o nível médio
e até passei no vestibular, mas a faculdade ficou para depois.
Comecei a perceber problemas na visão quando tinha 22 anos, e
no ano seguinte já não enxergava mais nada. Tinha trabalhado
numa promoção de ovos de páscoa até um mês
antes da minha primeira cirurgia (imagina quanto chocolate eu comi!).
Os médicos falavam que eu poderia voltar a trabalhar em pouco
tempo, só que me esqueci de perguntar quanto era esse tempo e
em quais condições. Depois de dois meses passei pela segunda
cirurgia e também não deu resultado. Esperei ainda mais
cinco meses para o médico me titular como Amaurótica.
Mas o que é isso? Bom, eu era mais uma jovem cega entre pelo
menos um milhão de brasileiros. Logo após o susto, vieram
as festas de fim de ano e aquela febre do bug do milênio. No início
de 2000 fui à procura de ajuda. Fiz cursos de informática
na Fundação Bradesco, Treinamento de Orientação
e Mobilidade e comecei um outro de Massoterapia no Espaço Amor.
Foi em um deles que soube da Laramara. Naquela época eu tinha
sede de recuperar o tempo perdido e ia a todos os lugares que me indicavam.
Na Laramara iniciei o curso de Preparação para o Trabalho.
No meu caso foi mais um dos aprendizados pelos quais passei naquele
ano. Por conta da minha experiência profissional anterior, fui
convidada a integrar a equipe de telemarketing, na qual permaneci por
cinco meses. Em 2001 fui transferida para o “COMPADRES”
(Conselho Mundial de Pais e Amigos do Deficiente Visual), um projeto
da Laramara, onde estou há dez meses. Iniciei também o
curso superior de administração, ao qual não dei
continuidade porque não é o que eu quero. Agora lhes digo
qual é a Lei da Compensação: por mais estranho
que possa parecer, junto com a cegueira eu tive muitas oportunidades
com as quais sonhava em ter e não tinha. Hoje tenho emprego fixo
e a certeza de um salário no final do mês, benefícios,
possibilidades de crescer na vida profissional e pessoal. Eu não
posso afirmar que ser cega é bom, mas vivo da melhor forma possível,
considerando a cegueira um detalhe e não o fator determinante
em nenhum aspecto da minha vida. Prefiro me lembrar da experiência
e habilidade que eu já possuía antes da cegueira, assim
me sinto muito melhor. Angela SP 21/01/2002